Jorge e Maria de Lurdes viviam na mesma casa há mais de 50 anos e esperavam passar nela calmamente a sua velhice. A tempestade Kristin passou, mas, após duas semanas, começaram a surgir pequenas rachas na parede, que foram aumentando até ficarem graves. Um deslizamento de terras fez parecer que um terramoto tinha passado por Covas da Cumieira, em Pombal.
A Proteção Civil ordenou que saíssem e estão agora em casa do filho. A casa não tem reparação e vai ter de ser demolida. Mas há um problema: não tinham seguro.
Apenas 55% das casas em Portugal têm seguro multirriscos
Este caso está longe de ser único. De acordo com a Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF), apenas cerca de metade dos edifícios em Portugal tem seguro multirriscos.
O que aconteceu a Jorge e Maria é apenas um exemplo de como a nossa vida pode mudar de um dia para o outro, de forma totalmente inesperada. Pode pagar um seguro durante toda a vida e nunca acontecer nada, ou pode representar a possibilidade de reconstruir a sua vida e recuperar a casa e os seus bens com algum equilíbrio.
Seguro multirriscos cobre maiores danos
Mas, para isso, tem de ter, em primeiro lugar, um seguro, e, em segundo lugar, um seguro que tenha as coberturas certas. Nem sempre uma coisa acompanha a outra.
As recentes tempestades em Portugal vieram destapar uma realidade que tem décadas. Cerca de metade das casas não tem seguro. Nenhum. É obrigatório por lei que os apartamentos tenham seguro de incêndio, mas acabam por fazer o multirriscos porque é mais completo por um valor apenas um pouco mais caro.
Quem fizer um crédito à habitação será também obrigado a fazer um seguro multirriscos. O problema é que praticamente todos os outros confiam que nunca nada vai acontecer e, por isso, fazer um seguro é só mais uma despesa desnecessária.
Sem seguro, a fatura é do proprietário
O que tem de perceber é que quem não tem seguro multirriscos, se a casa ficar inabitável ou sofrer danos graves, vai ter de pagar tudo do seu bolso ou contar com a solidariedade de outros e do Estado, coisa que pode não acontecer.
O alerta é ainda mais importante porque a maior parte das poupanças das famílias portuguesas está na casa própria, que construíram ao longo de décadas com muito esforço. Uma tempestade, um deslizamento de terras, uma inundação ou um incêndio podem destruir todo o seu património de um dia para o outro.
Deve confirmar o mais rapidamente possível que tem um seguro multirriscos e se tem incluídas as coberturas de fenómenos da natureza, como aluimento de terras e inundações, para além das outras habituais. Se não tiver, corrija isso assim que possível.
Deve compreender que este seguro lhe paga o preço da reconstrução e não dinheiro para comprar uma casa nova. Outro detalhe importantíssimo é declarar sempre os valores corretos, porque se só fizer um seguro por metade do que vale a sua casa, a seguradora também só lhe vai pagar metade do valor necessário.
Para saber o valor da reconstrução da sua casa, use o simulador da Associação Portuguesa de Seguradores (APS). Basta pesquisar no Google "Simulador do Custo de Reconstrução de Imóveis", preencher o formulário e fica logo a saber o valor justo que deverá receber.
E o seguro do carro, o que protege?
O carro é outro bem que pode não estar seguro como pensa. Nas tempestades e inundações mais recentes, houve carros arrastados pelas águas, árvores e muros que caíram em cima das viaturas, causando muitos danos e perdas. Os seguros contra terceiros pagariam estes estragos? A resposta é não.
Pergunte na sua seguradora quanto custaria a mais ter essa cobertura de fenómenos da natureza e depois avalie se vale a pena acrescentar.
Sismos exigem cobertura à parte
Todos devemos ter a consciência de que os seguros multirriscos com cobertura de fenómenos da natureza não incluem sismos.Aproveite e, quando falar com um mediador de seguros, peça também uma simulação para a cobertura de fenómenos sísmicos.
Ao fazer o contrato, tenha estes cuidados: atenção ao valor das franquias, porque às vezes o barato pode sair caro. Declare sempre os valores reais e faça todas as perguntas até perceber o que está a contratar. Não pense que estas coisas só acontecem aos outros.
